ENTREVISTA DE MENELAOS STEPHANIDES
Por Stylianos Tsirakis (Odysseus Editora)
(direto de Atenas, Grécia)


Pergunta: Qual é, na sua opinião, a importância da Mitologia Helênica?
Stephanídes: A Mitologia Helênica tem uma importância que transcende o tempo. Existe há milhares de anos, mas adquire vigor renovado, o que, certamente, não constitui um fenômeno tão atual. Inicia-se no Renascimento - podemos até dizer que ela prestou uma imensa contribuição ao Renascimento - e hoje, depois de uma virada no começo do século XX, conhece, nas últimas três ou quatro décadas, um novo florescimento em escala mundial.

P: E em que consiste a sua importância?
S: De um lado, em seus valores humanos; de outro, em sua poesia. Sobretudo estas duas (características) são indissociáveis da Mitologia Helênica. Uma coisa é quando você diz: isto não é aquilo, e outra quando isto emana do interior de um mito pleno de poesia. E aqui eu acrescento uma outra importância, também bastante significativa: ela possibilita ao leitor o contato com toda uma época. E era sobretudo uma época em que não havia historiadores. Contudo, havia poetas em grande quantidade, e felizmente, pois, de outro modo, não teríamos esta obra imortal que se denomina Mitologia Helênica, mas apenas um registro histórico, de um lado, e, creio eu, áridas definições, de outro. Isto não significa que eu não reconheça a importância da história, tanto mais que a Grécia antiga é célebre por seus historiadores, entre os quais destaca-se o extraordinário talento de Tucídides. E mais ainda: a Mitologia Helênica, como é sabido, enriqueceu o vocabulário de todas as nações do mundo. Como poderíamos compreender palavras e concepções como narcisismo, tonel das danaides, os suplícios de Tântalo, a caixa de Pandora, os dias 'alciônicos', e tantos outros que entraram para várias línguas, se não conhecéssemos a Mitologia Helênica? E no entanto, tudo isso, naturalmente, não entrou para o nosso vocabulário porque alguns o quiseram, e sim porque a mitologia dos antigos gregos tinha e tem uma força e um encanto irresistíveis.

P: Por que o senhor decidiu dedicar-se à Mitologia Helênica?
S: Minha resposta talvez lhes causará estranheza: por causa dos meus filhos, pois queria uma exposição da mitologia tal como julgava que ela deveria ser quando ela é dirigida às crianças e aos jovens.

P: Quer dizer então que o senhor escreveu essa vasta obra para os seus filhos?
S: No começo, para os meus filhos. Raramente alguém começa assim, mas foi desse modo que aconteceu comigo. O problema era que eu desejava algo diferente e não o encontrava. Li obras de mitologia de autores americanos, ingleses, franceses, russos. Cada um tem seu próprio modo, seu estilo, sua visão pessoal. Eu tinha uma visão diferente e era isso que eu queria transmitir. Principalmente, porém, não desejava que fosse um livro de referência, mas uma obra que, desde o momento em que caísse nas mãos de um leitor adulto ou criança, fosse lida até o fim. Além disso, jamais faria algo que alguma outra pessoa já fez. Quis dar a minha contribuição, ainda que fosse uma minúscula pedra no majestoso edifício da Mitologia Helênica.

P: O senhor dedicou-se ao estudo, como disse anteriormente, de vários escritores de mitologia. Há, entre eles, algum que o senhor destacaria?
S: Há vários que são bons, acima de todos, porém, coloco o acadêmico Jean Richepin que afirma: "se tivesse de tratar a mitologia grega como ciência, eu o recusaria com todas as minhas forças. Juro pelas Graças desnudas". É a bela visão de Richepin, que faz que seu amor pela Mitologia Helênica e pela Grécia literalmente transborde. Rejeito Decharme, ainda que ele tenha obtido o prêmio da academia Francesa: "não sei", diz ele, "como um povo tão esclarecido teve semelhantes crenças". O que dizer? Se você não ama o que faz é melhor não fazer.

P: Por quanto tempo o senhor se dedicou à composição desta obra?
S: Parecerá inacreditável: vinte e cinco anos. Foram necessários cinco anos para um estudo preliminar e para publicar o primeiro livro, que entrou em circulação em l974.

P: É, portanto, obra de toda uma vida?
S: Sem dúvida alguma.

P: Quer dizer que a própria complexidade da Mitologia Helênica exige tantos anos de estudo para que o trabalho seja bem sucedido?
S: Veja bem, existem as circunstâncias da vida que não podem ser evitadas. Mas mesmo que tivesse sido consumida somente a metade do tempo, ainda assim seria obra de uma vida. Isto que fizeram alguns editores, quando perceberam que a coleção de mitologia de Stephanides também obtinha êxito comercial, e imediatamente puseram-se a publicar livros e mais livros de mitologia, publicando livros de uma natureza superficial imperdoável.

P: O que o senhor teria a dizer a respeito da educação na Grécia Antiga?
S: Que ela era de altíssimo nível. Só que quando digo de altíssimo nível não o entendo no sentido atual, isto é, no das escolas mais elevadas, mas que a instrução geral havia atingido um nível que ainda hoje até mesmo os países mais desenvolvidos sentiriam inveja. Em verdade, quantas nações no mundo proporcionam atualmente a instrução fundamental e gratuita a todos os jovens dos seis aos dezoito anos, tal como sucedia na antiga Atenas? Eu diria nenhuma.

P: E o que aprendiam?
S: Antes de tudo, Mitologia Grega.

P: Não me diga que o aprendizado básico concernia à religião?
S: Algo diferente. Pois simplesmente não existia religião na Grécia Antiga (certamente não no sentido que nós a entendemos hoje). Evangelho para os gregos antigos era a Ilíada, a Odisséia, a Viagem dos Argonautas, as façanhas dos heróis e outras semelhantes "religiosidades" que os jovens alunos literalmente sorviam e aprendiam de cor até que eles próprios se tornassem poetas e artistas. A religião antiga não era dogmática. Não havia impedimentos para mudanças e interpretações. Cada poeta também se tornava, na medida de sua inspiração e competência, um plasmador de mitos. E contudo, todos acreditavam que as Musas inspiravam os poetas. O que um poeta dizia era prontamente aceito - falamos certamente sobre épocas muito antigas, os chamados tempos míticos - por isso também existiam mitos com numerosas variantes que com freqüência contradiziam-se entre si. Todavia, isso não incomodava ninguém. Era, portanto, uma religião profundamente democrática. Mas me desculpe, não concluí a pergunta referente sobre o que "aprendiam". Aprendiam então mitologia, mas também música e dança. Aprendiam a escrever, a calcular, a competir e a nadar. E isso era difundido entre todos, o que, a meu ver, tinha grande importância. Nada mais lógico, portanto, que as letras, as belas artes, as ciências florescessem de modo tão exuberante. Esse foi o motivo porque tivemos nomes tão famosos como os de Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Fídias, Praxíteles, Platão, Aristóteles, Pitágoras, Heráclito, Demócrito, Hipócrates, e tantos outros.

P: Qual, na sua opinião, a importância da Mitologia, especialmente para os jovens da atualidade?
S: Hoje que a juventude é literalmente bombardeada pela televisão, pelo cinema, pelo livro barato e por todos os meios mais recentes, com tanta violência e tanta comoção, a Mitologia Helênica é um dos raros oásis que dispõem de oxigênio puro e abundante. Basta apenas que esse oásis seja de tal qualidade que capte a atenção do jovem, para que possa rivalizar com a violência e a comoção, algo que hoje em dia, infelizmente, é extraordinariamente difícil. Quando entram em jogo, de um lado, milhões de dólares, e de outro, o ardor e boa intenção, o combate parece desigual. Porém, não percamos nossa coragem, pois com freqüência os partidários desta boa intenção encontram simpatizantes que se tornam os defensores de uma nobre causa. E com relação à Mitologia Helênica, houve muitos exemplos de vários editores em diferentes partes do mundo e um desses exemplos de tentativa é o das publicações da Editora Odysseus, do seu país, o Brasil, à qual devo as publicações de meus livros em língua portuguesa e a quem eu pessoalmente muito agradeço.

P: O senhor tem uma predileção por algum mito em particular?
S: Você me faz uma pergunta difícil. Qual escolher e qual deixar de lado? Gosto tanto do conjunto da Mitologia Helênica que isso não me permite dar preferência a um mito em detrimento de outro. Gosto tanto da poesia épica quanto da lírica. Eu diria que cada mito tem o seu lugar e sua finalidade. Cada um tem um significado próprio. Tanto como se uma obra prima de qualquer parte do mundo tem seu ponto culminante como, por exemplo, A Ilíada, de Homero, na despedida de Heitor e Andrômaca, ou quando Príamo chega como suplicante à tenda de Aquiles. Basta um verso da Odisséia como "não há nada mais doce no mundo que nossa pátria e nossos pais" para que você diga que já não é possível distinguir qual é a obra que está em primeiro lugar, qual em segundo. Com certeza, do conjunto dos mitos agrupados nesta coleção de oito volumes, alguém poderá dar preferência a um dos livros ou a um dos mitos, em particular. Mas que seja uma outra pessoa, não eu, que digo isso e o sinto. Direi apenas, uma vez que essa entrevista se destina a um periódico dirigido a educadores, que é preciso dar importância ao mito de Erisícton, o homem que destruía as árvores, um mito a que você se referiu e que acontece nos dias de hoje.

P: Pode nos dizer o que o senhor conhece do Brasil?
S: A sua pergunta ocorre no momento oportuno. Eu dizia a você a respeito do mito do homem que destruía as árvores. Sei quão grande é a catástrofe que ocorre com a destruição da floresta amazônica, que não é apenas o pulmão de seu país mas de todo o planeta. Tal como essa floresta, houve também, há poucos anos atrás, a conferência mundial sobre o meio ambiente, que foi sabotada por interesses escusos, tal como as conferências posteriores. Agora, quanto ao seu país, direi que conheço poucas coisas, porque o conheço mais bem pela geografia. Desde menino eu adorava viajar - e uma vez que não dispunha de outros meios - através de mapas e livros de geografia, e o Brasil, como um grande e longínquo país, despertava meu interesse. Fiz, no entanto, uma viagem ao Mato Grosso através do incomparável livro Ruas da Fome, de Jorge Amado, que foi traduzido para a língua grega.

P: Sua obra sobre a Mitologia Helênica foi concluída em 1994. A que projeto o senhor se dedica desde então?
S: Às fábulas gregas tradicionais. Já li centenas de coleções de fábulas tradicionais nas quais constatei, depois de muito estudo, que a musa que inspirava aedos da estatura de um Homero não cessou também de inspirar, com mesmo desvelo, os cantores populares de uma época inteiramente diferente. Só que essas fábulas foram encontradas desfiguradas e com freqüência mutiladas. Desta forma, aqui também foi necessário muito trabalho para extrair algo que desse uma mostra da fábula antiga tal a como contavam os talentosos fabulistas dos tempos antigos.

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TRADUÇÃO DE LUIZ ALBERTO MACHADO CABRAL

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