Alexandria - A cidade do pensamento ocidental

Dentre as cidades do Mundo Antigo cuja simples menção suscita em nosso imaginário o esplendor de toda uma época, Alexandria ocupa uma posição singular. Fundada por Alexandre, o Grande, em 331 a.C., a cidade deslumbrava todos que a visitavam, quer chegassem por terra ou por mar, mas principalmente por mar, de onde se podia avistar o farol mais famoso da Antigüidade, o de Faros, considerado uma das sete maravilhas do mundo. Alexandria tornou-se o principal centro intelectual do mundo helenístico e foi também palco de alguns dos acontecimentos históricos mais espetaculares de todos os tempos, aos quais os nomes de Júlio César, Cleópatra e Marco Antonio se ligaram para sempre.
No âmbito cultural, talvez nenhum outro governo do mundo tenha associado tão estritamente o poder ao saber quanto os soberanos da dinastia dos Ptolomeus, que fundaram a famosa Biblioteca e foram patronos entusiásticos da literatura. Graças ao desenvolvimento da produção de livros em grande escala, a educação estendeu-se a uma ampla camada da população. A erudição foi valorizada como nunca; prova disso é que os poemas considerados mais característicos da época são os epigramas e idílios breves e altamente refinados, nos quais Calímaco foi mestre insuperável. No campo do conhecimento científico, Alexandria presenciou um avanço admirável, especialmente nas esferas correlatas da astronomia e das matemáticas. Os expoentes máximos nessas ciências foram Aristarco, Arquimedes, Hiparco, Euclides, Eratóstenes e Posidônio. Entre os exemplos extraordinários de progresso nessa época podemos mencionar a descoberta da precessão dos equinócios e o cálculo, com notável aproximação em termos de precisão, da duração do ano solar e do mês lunar e da extensão da circunferência terrestre. Aristarco, muito antes de Copérnico, expôs a idéia de que a terra e os planetas giram em torno do Sol, embora essa teoria tenha sido abandonada por seus sucessores. No âmbito da anatomia, a descoberta mais importante foi a do sistema nervoso por Herófilo e Erasístrato.
É todo esse rico panorama de idéias e descobertas que marcaram para sempre o espírito humano que Theodore Brettós aborda em seu livro cativante, no qual o sentido de história se baseia antes na compreensão dos fenômenos artísticos e intelectuais da época do que na enumeração fastidiosa de todos os soberanos da dinastia dos Ptolomeus. Por sua concisão e objetividade, que prescinde da tediosa citação das fontes (embora elas sejam indicadas no início) e valoriza o entendimento dos fatos mais significativos, Alexandria é um dos melhores livros de introdução ao estudo do fascinante (e pouco conhecido!) período helenístico, pois para seu autor, assim como para os antigos alexandrinos, prazer e erudição são inseparáveis.